Desculpe o transtorno, mas sua declaração não é fofa, Gregório


Um dia você chega no trabalho e todo mundo está te olhando como se você fosse um alien. Sussurram sobre algo, te olham de canto, mas não te falam o que é. Eis que uma colega de trabalho sua, toda empolgada, chega com o celular dela na mão, "Olha que lindo o que seu ex escreveu!" e pronto, começa o dia dos pesadelos. 

A cara do romance.


Ninguém te dá paz. Vocês terminaram há dois anos e nesses dois anos você tem tentado ao máximo fazer sua carreira decolar longe da sombra do seu ex, você tem descoberto mais sobre si, sobre o mundo e mostrado pra todos a mulher incrível que você é. Sozinha. 



Mas não.



Não, porque o babaca do seu ex resolveu declarar o quanto você era o amor da vida dele, ele escreveu coisas tipo "se ao menos a gente tivesse tido um filho, penso, levaria ela pra sempre comigo". E de repente o mundo inteiro está jogando seu passado na sua cara, como se você não lembrasse claramente dele. 

E de repente milhares de estranhos querem desesperadamente que você volte com seu ex, que já é outra pessoa, e você também é. Querem que você dê passos para atrás porque ele resolveu falar pro mundo que você faz falta. Como se a sua opinião não importasse. Como se o fato de que acabou não significasse exatamente isso: acabou. Não deu certo. Não era pra ser.

E ai de você se falar algo. Afinal, tadinho dele.

Não há nada de bonito, fofo ou romântico em expor uma pessoa a uma situação dessas. Imagine se o seu ex de dois anos atrás de repente resolvesse se declarar pra você e todos seus amigos e família começassem a te pressionar para você voltar com ele? Horrível, não é? Extrapole isso para milhares de estranhos da internet e você talvez imagine como é a segunda-feira de Clarice Falcão.





Quando amamos alguém, consideramos o sentimento da pessoa amada antes de tomar uma atitude que possa afetar sua vida, seu dia-a-dia, e se essa atitude for prejudicial pra ela, tentamos achar outra saída, outra forma de agir. Por quê? Porque não queremos ferir quem amamos. Ou pelo menos deveria ser assim.

Se um indivíduo é incapaz de considerar como suas ações podem afetar a tal pessoa amada, então que grande amor é esse? Se um indivíduo é incapaz de imaginar que a tal pessoa amada não pensa como ele e talvez não queira essa exposição e não ache que é lisonjeiro tal texto, então ele nem ao menos a reconhece como ser humano único, com suas particularidades, opiniões e ideias que diferem das dele.

Não é possível amar quem você não conhece, e não é possível conhecer quem você vê apenas como reflexo seu.

Essa declaração foi do autor para o autor, considerando apenas seus sentimentos, opiniões e pensamentos, sem em momento algum pensar como isso afetaria Clarice.

Ainda não está convencida(o) de que o texto foi problemático? OK.

"Amor, fiz um texto pra minha ex. Disse que ela sempre vai fazer falta e queria ter um filho dela." "...QUÊ?!"
Imagina que você está saindo com um fulano, e esse fulano faz um textão pra ex dele dizendo como ela foi o amor da vida dele, como ela faz falta, que ele queria ter um filho dela etc. etc. Ainda é fofo? Não, né? Claro que não, porque você se torna, então, a segunda opção. A outra em um relacionamento onde, de repente, tem três pessoas e não só vocês dois.

Ou então imagine que você trabalha com seu ex de dois anos atrás e você pensa que 'tá tudo bem, afinal, já faz tempo que terminaram. E você namora, namora sério, até mora com seu namorado. Eis que um dia você chega em casa e seu namorado, tenso, está lendo um texto do seu ex que trabalha com você e nesse texto está escrito o quanto ele sente sua falta, que você foi tudo pra ele, que a vida começou quando ele conheceu você. Seu namorado atual só te olha, um misto de tristeza e preocupação, porque ele sabe que não é sua culpa, mas ele fica preocupado de você trabalhar com esse creeper todo dia. E então, ainda é fofo?

E se você tivesse um filho com esse cara e ele disse que queria custódia pra poder carregar pra sempre um pedaço seu? Ainda é fofo? Não, né?

Tudo é lindo quando é com os outros. Tudo é amor quando não paramos para analisar o que significa e qual seria o impacto disso na nossa vida se acontecesse com a gente.

E tudo isso é apenas o começo do problema. Conversei com um amigo sobre o texto, e ele me disse algo muito interessante:

"Vivemos numa época que o mensageiro importa mais que a mensagem. Não é mais o que foi dito, mas por quem foi dito, que vai direcionar a reação das pessoas."


Quem fez o texto? Gregório Duvivier. Esquerdista. Feministo. Desconstruidão. Ele até sabe o significado de coisas como gaslighting e heteronormatividade. E só por ele ser quem é e passar muito bem essa imagem de homem evoluído que sua mensagem teve algum valor.

Veja bem, se fosse alguém tipo, sei lá, Dado Dolabella, que tivesse dito "se ao menos a gente tivesse tido um filho, penso, levaria ela pra sempre comigo", talvez a reação das pessoas tivesse sido diferente. Teriam achado absurdo, doentio, escroto. Mas não foi o Dado. Foi Gregório desconstruidão. Ele pode.

Vamos um pouco além, vamos mudar o genêro desse ser humano. Se fosse uma mulher que tivesse proferido tais palavras, qual seria sua reação?

"se ao menos a gente tivesse tido um filho, penso, levaria ele pra sempre comigo" tenso, né?
Golpe do báu, interesseira, maria youtube, louca, obcecada e por aí vai. Creio que se a própria Clarice tivesse escrito a declaração, a reação das pessoas seria outra. Seria negativa. Porque uma mulher que passa dois anos fixada no seu ex, não consegue superá-lo e ainda se declara pra ele em público é considerada insana, tadinha.

Eu não consigo enfatizar o suficiente o quanto foi perturbador ler esse texto. Gente, de verdade, considerem essa situação: seu ex de dois anos atrás aparece do absoluto nada e diz que você foi o grande amor da vida dele, que das dez músicas favoritas dele, 7 você recomendou e 3 você compôs, que ele queria ter tido um filho com você pra carregar um pedaço seu pra sempre com ele. O que você faz? Avisa todo mundo que você conhece que o cara pirou, chama a polícia, faz um BO, pede uma medida cautelar, se muda, etc. etc. Seria um comportamento NO MÍNIMO preocupante.

Então por que no caso do Gregório todo mundo acha fofo? Não é fofo.

Desconsiderar os sentimentos da pessoa amada e expô-la a julgamento público e pressão social para que ela volte com você não é fofo, dizer coisas que só um stalker diria não é fofo, usar do sentimentalismo e falta de bom senso das pessoas para promover seu filme não é fofo. É creepy. É péssimo.

Mais péssimo ainda é achar que tudo isso é bonitinho.

Obs.: Sobre as pessoas que estão defendendo o post com o argumento de "mas é só uma propaganda pro filme dele", vamos falar sobre outras "só propagandas" que já existiram:





Mas relaxa, né? Afinal, são só propagandas. Não é como se propaganda (a mídia) fosse capaz de influenciar as pessoas, né?



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