"O Beijo do Marinheiro", Romance ou Abuso?

sailor kiss times square


Ah, o amor! Ah, a vitória! A comemoração nesse dia foi algo inacreditável! "V-J in Times Square" é uma foto icônica da história dos Estados Unidos. Esse momento representa a euforia de uma nação no dia em que a Segunda Guerra Mundial acabou. Nada de mal.

Quer dizer, obviamente essa foto é romântica, certo? Afinal, ele está só comemorando, não é mesmo? Ela parece estar super confortável sendo agarrada por um estranho, a mão fechada como se ela fosse dar um soco nele...normal, não é? 

Erm...como dizer isso? Não. Simplesmente não.

Em primeiro lugar, deixe-me esclarecer algumas coisas sobre o honrado marinheiro que beijou a jovem enfermeira. Alfred Eisenstaedt, o fotógrafo, disse o seguinte em seu livro:
"I was walking through the crowds on V-J Day, looking for pictures. I noticed a sailor coming my way. He was grabbing every female he could find and kissing them all — young girls and old ladies alike [...] the sailor came along, grabbed the nurse, and bent down to kiss her."

Resumindo e traduzindo: esse marinheiro (que estava lá com a namorada) andava na rua beijando qualquer mulher que aparecia na sua frente sem pedir permissão, sem se importar com idade, tamanho ou cor. Ele simplesmente beijava, como se ela fosse um objeto seu e ele tivesse todo direito de sair agarrando. 


Ritmo, é ritmo de festa! Só que não.
Não. Não importa se a guerra acabou, não importa se todos estão comemorando, não interessa qual é a situação, não existe motivo nesse mundo que dê a permissão para que um homem saia agarrando as mulheres a sua volta como se elas não tivessem vontade própria, como se não se importassem, ou como se fosse romântico.

É, essa mão fechada demonstra que ela devia estar gostando. Escapar era fácil, não é? Ele nem era maior e mais forte do que ela, e não é como se ela mal conseguisse se mexer do jeito que ele a agarrava. Ah, ela nem deve ter ligado. Mas ela ligou:
“It wasn’t my choice to be kissed. The guy just came over and grabbed!”
Hm, não parece que ela teve como escolher se queria beijá-lo ou não.
“That man was very strong. I wasn’t kissing him. He was kissing me.”
"Eu não estava beijando ele. Ele estave me beijando." Pois é. E apesar disso tudo, essa foto é considerada "romântica". Honestamente, quem olhou para isso e viu uma cena romântica? E sabe qual a desculpa do nobre marinheiro pelo seu não-tão-nobre ato? 
"The excitment of the war being over, plus I had a few drinks..." 
Legal. A desculpa dele é que ele estava bêbado. Sabe como você fica bêbado? Pegando uma garrafa de álcool e engolindo o conteúdo dela. Ou seja, meu querido, você é o culpado, não a bebida. Você escolheu beber, assim como escolheu beijá-la.

Deixa eu te beijar? Em homenagem ao marinheiro vai! Ignora meu bafo de álcool, finge que você não está com medo de mim enquanto eu te agarro e deixa eu tirar uma foto! Não? Beleza, te agarro mesmo assim!

É compreensível que ninguém tenha visto isso como um problema em 1945. Mentira, não é compreensível, mas é mais fácil entender que o homem da época não via isso como um problema. Que a mulher da época não via isso como um problema. Agora, em pleno século XXI, com leis e leis para defender a mulher, é inaceitável que essa foto continue sendo divulgada como o retrato de um "ato romântico".

Não há nada de romântico em ser beijada contra sua vontade por um cara bêbado. 

A não ser que você curta esse tipo de coisa na balada. Nada mais divertido do que estar dançando no meio da pista, ou estar a caminho do banheiro, e um cara bêbado te agarrar do nada. E ninguém dá a mínima, pois todos a sua volta estão igualmente bêbados. 

Ah, normal, né? 

Não!


Enquanto continuarmos aceitando esses atos de abuso, rotulando-os como "atos românticos", apenas damos força para uma convenção social muito perigosa: a crença de que, no fundo, a mulher sempre pede por isso (mesmo quando ela diz não).

"Isso" pode ser o beijo do cara bêbado, um assovio aleatório na rua, um cara que se aproxima do nada e sussurra no seu ouvido, alguém te encoxando no metrô...e nem preciso comentar outras situações bem piores do que essa, certo? 

Está na hora das pessoas acordarem. O corpo é meu, e eu decido o que fazer com ele. Qualquer ato, e eu repito, qualquer ato que viole esse meu direito nada mais é do que um crime!

Por: Gaby




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